Haviam se passado muitos dias desde o terrível acontecimento, mas eu já estava tranqüilo e despreocupado, quando de repente a vi. Aquela mulher que foi o meu mundo, a minha vida, aquela que me levou ao céu e ao inferno passava diante de mim como se nada tivesse acontecido, como se eu não valesse nada. Surpresa. O destino quis deste homem as últimas lágrimas e suspiros de amor. A visão daquela mulher reacendeu todo o sentimento que havia em mim desde a adolescência, desde a Era da Felicidade. Como ela desfilava assim? Com toda essa graça e leveza num reles mercadinho de esquina? Ela é muito superior a todos daqui, isso é um fato. Mas tenho que me controlar... sou um homem racional ou um animal que não controla os seus instintos?
Saí do mercado e me dirigi ao meu refúgio, meu canto de serenidade e paz, único lugar em que me senti seguro depois daquilo, mas neste exato momento a última coisa que tenho é paz. Não consigo dormir, não consigo comer, não consigo pensar, a única coisa que vejo é a figura dessa sereia em minha mente. Quem sabe uma boa leitura poderá me salvar das garras dessa Cleópatra das Américas, dona de curvas inigualáveis e seios de Vênus?
Merda! De todos os livros da minha pequena coleção me tinha de tirar justamente este? Exatamente este maldito livro que já me ajudou tantas vezes antes... será que poderia salvar-me desta vez, como outrora?
Deslizo a mão sobre a capa como lembrando dos afagos dela, cada ponto de tinta daquele livro é uma transa descomedidamente tórpida e sensual, cheia de amor, cheia de ódio, cheia de paradoxos e desejos efervescentes em meu ser. Sem abrir os olhos, ainda lembrando das noites de amor, abro o livro e escolho uma página. O que será que Zeus reservou para mim? Ahh, sim. Lembro-me bem dessa passagem, meu pai já havia me falado dela muito tempo antes, quando eu era apenas um garoto. Neste livro sobre como "apimentar" relações, tinha um capítulo só para casados, que por sinal, eu ainda não havia lido. E no capítulo sobre como sair da rotina foi exatamente onde pus os olhos, receoso sobre o mal que me faria só por ler a palavra casamento. Seguiam-se os conselhos:
Pegue sua mulher de surpresa, leve-a para jantar à luz de velas e depois a conduza até uma câmara nupcial para despi-la com o tocar dos lábios úmidos de paixão e desejo...
Penetre-a com toda fugacidade do seu amor e faça-a sentir mulher como na primeira vez em que ela lhe banhou com as águas do seu prazer. Faça-a se esquecer dos problemas, das angústias, das brigas e injúrias displicentes e, ao final, quando ela se esquecer até de que é mãe e perder totalmente o pudor, declame todo o seu amor e paixão e lambuze-se com a felicidade de um relacionamento completo.
Deixar-se levar pelos sentimentos pode ser cruel, mas também um conto de fadas...
Voraz, ó noite selvagem! A solidão me consome o fundo d`alma!
O que eu não daria para tocá-la de novo? O quão doce e instigante é o cheiro daquela mulher...
Que faço, meu Deus? Como voltar a dormir sem o seu corpo junto ao meu? Como não morrer de desejo e encontrá-la nos sonhos para realizar meus mais sórdidos fetiches? Como conseguir voltar ao estado normal da fisiologia se não consigo tirá-la da cabeça?
Foi então que me decidi; saí do quarto de hotel e fui correndo de volta pra casa.
Perdoa-me esposa, perdoa-me, por favor...
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